Eu percebia o meu coração desacelerar e até o seu pulsar repetitivo se tornava uma canção doce e acolhedora como poucas vezes escutei. Em todas essas imagens eu raramente via pessoas de minha família e mesmo assim não me sentia só. Mesmo quando minha mente mergulhava no mais profundo e complexo túnel eu me sentia valente, sentia-me completo e capaz de enfrentar qualquer desconhecido a minha frente.
Estar em coma é uma deliciosa mistura de sonho e realidade. Você tem sempre a certeza de que está no controle e pode despertar a qualquer momento, porém, como em uma manhã fria ou chuvosa você pede por mais quinze minutos. Possuído por essa sensação viciante de prazer e relaxamento você se entrega e o tempo passa, porém jamais lhe parece mais do que aqueles quinze minutinhos.
Havia uma imagem que constantemente se mostrava em meus devaneios: eu quando criança. Quase sempre essa figura observadora e preocupada aparecia em momentos inusitados. Eu não sabia ao certo o que minha mente estava querendo me dizer. Eu me via com cerca de cinco anos, não mais que isso. Não entendia o que havia de tão relevante naquela fase. Talvez fosse um recomeço ou um resgate a algo que ficou preso na infância. Eu não sabia exatamente o que.
Eu sabia que aquele transe não seria eterno, por mais intoxicante que fosse. O despertar finalmente aconteceu. Senti meu corpo dolorido e cansado. Senti cada pedaço do meu corpo despertar cuidadosamente. Meus olhos se abriram lentos incomodados pelo excesso de luz. Para a minha grande surpresa, a imagem que vi foi justamente a minha com cinco anos. Porém, ele não ficou parado dessa vez veio ao meu encontro e abraçou-me forte com uma alegria intensa. Eu toquei em seu corpo cuidadosamente, meus braços doíam. Ele era real, de carne e osso. O menino olhou fundo em meus olhos e com um sorriso me chamou de pai.
Eu estava certo, era sim um recomeço…















