A Companhia das Letras gentilmente enviou-me suas duas versões de Jubiabá: a obra original de Jorge Amado e a adaptação em quadrinhos escrita e desenhada por Spacca. Sobre a adaptação, vocês podem conferir minha opinião no PsychoComics. Sobre a original:
Jubiabá
Jorge Amado
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 360
ISBN:9788535913545
Publicação: 2008
Compre: Submarino | Saraiva | Cultura
Preço sugerido: R$ 49,00
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Sinopse:
Antônio Balduíno nasce órfão no morro do Capa-Negro, que tinha como grande referência espiritual o centenário feiticeiro e ex-escravo Jubiabá. Depois de uma infância de liberdade e pequenos delitos nas ruas de Salvador, num ambiente similar ao que seria desenvolvido em Capitães da Areia, vira malandro, sambista e desordeiro, até ser transformado em boxeador profissional por um empresário italiano. Encerra a carreira prematuramente ao tomar uma surra no ringue numa noite de bebedeira e acaba indo trabalhar nas plantações de fumo do Recôncavo Baiano. Explorado ao extremo, apunhala um homem, foge, se engaja num circo ambulante, volta a Salvador, vira estivador, faz greve. Ao longo dessas muitas vidas, choca-se contra o mundo das mais variadas formas, até atingir um vislumbre de compreensão da realidade que o cerca e de seu lugar nela.
Jorge Amado foi um dos escritores brasileiros de maior sucesso, tanto aqui quanto no exterior. Seus livros foram publicados em mais de 50 países e adaptados para rádio, cinema, teatro, televisão e quadrinhos. Jorge Amado morreu em 2001 e deixou um acervo de 45 livros escritos.
Jubiabá foi publicado em 1935, quando o autor tinha 23 anos. Na época, era membro do PCB, pelo qual foi eleito deputado federal em 1945. Suas obras, nesse período, eram panfletárias.
Antônio Balduíno cresceu nas ruas de Salvador. Aprendeu a mendigar, roubar, lutar e cantar. Um vagabundo que vivia pelo orgulho, prazer e liberdade. Foi mendigo, sambista, pugilista, artista de circo e estivador. Seu senso de moralidade foi influenciada por Jubiabá, o pai-de-santo e pauta-se numa metáfora simples: a de que os homens têm um olho da crueldade e outro da piedade. Quando o da piedade vaza, o caráter do sujeito debanda para a crueldade pura.
Assim como outros heróis dessa fase panfletária de Amado, Balduíno está em busca de algo que não sabe mensurar e trafega perigosamente entre a bondade e a vilania. Nos últimos capítulos, ao participar ativamente de uma greve e vislumbrar a perspectiva de futuras lutas, encontra sua vocação e sua redenção. Essa intenção propagandista de Jorge Amado soa um tanto ingênua nos dias de hoje, pelo menos em alguns detalhes, mas vale lembrar o distanciamento histórico, afinal, o livro tem mais de 70 anos.
A partir da década de 1950, depois de se desligar do partido comunista, os livros de Jorge Amado perderam essa característica e passaram a carregar no desfile de tipos, na sensualidade debochada e no humor. É o caso de Gabriela, Tieta do Agreste e tantos outros, mais populares nas adaptações de cinema e TV.
Jorge Amado dominava como poucos o discurso indireto livre. Com elegância crua, seu texto guia o leitor através das ruas de Salvador, de seus becos e janelas e por dentro das mentes de seus personagens, que são movidos a sofrimento, orgulho e paixão. Sem ter que recorrer a descrições minuciosas, ele convida a assistir a um ritual num terreiro de umbanda, a deitar na areia e imaginar que maravilhas existiriam além do mar, berço de mistérios e suicidas. Ler um livro de Jorge Amado é catártico. Talvez em Jubiabá as leitoras se incomodem com o papel secundário das mulheres: não passam de causadoras das desventuras amorosas de Antônio Balduíno. Mas esse papel secundário não é contínuo no trabalho de Jorge Amado. Basta conferir suas obras pós-PCB, como Gabriela e Tieta do Agreste.
Jorge Amado estava inspirado pelas certezas da juventude, pelo trabalho de Gilberto Freire e por ideais que se pretendiam transformadores. Jubiabá é um livro intenso, sensual e idealista. Se você foi vítima da obrigatoriedade – algumas vezes, desanimadora – de ler autores clássicos nacionais e, por isso, riscou Jorge Amado de sua lista, repense. Vale sair um pouco das fórmulas “fáceis” de roteiros importados que se pretendem livros e conhecer um pouco do trabalho de um dos mais representativos autores brasileiros.















