Saudações, galera. Tio Walter está de volta para falar de um livro surpreendente, que merece estar na sua biblioteca:
Como caiu nas minhas mãos:
Não é tão comum assim, mas eu e Camila trocamos nossos livros. Coloquei meu exemplar de “Reino das Névoas” sobre a imensa pilha de futuras leituras. Claro que, pelo tamanho, ele ganhou prioridade. “A game of thrones”, por exemplo, está lá embaixo. Minha esposa, que é preparadora de textos e ficou curiosa, leu antes. Quando terminou, intimou-me: você TEM que ler este aqui! Acreditem, quando ela diz isso, é sério. Li e foi uma experiência… bem… na verdade, a melhor palavra para descrever é refrescante.
Comentários sobre a autora:
Camila Fernandes é ilustradora, preparadora de textos e escritora. Já fez outras coisas e tem outras tantas atividades, como você pode conferir na entrevista que ela deu para o Papo Fantástica. Já publicou contos em antologias da Tarja e, inclusive, ilustrou as capas de algumas delas. “Reino das Névoas” é seu primeiro livro solo. Ela diz que ter sido aprovado pelo PROAC (Programa de Ação Cultural do Estado de São Paulo) viabilizou a obra. Pessoalmente, acredito que seu livro merecia ser publicado, com ou sem incentivo público. Vale.
Camila tem personalidade forte e opiniões sólidas. É feminista, levanta bandeiras e, o mais importante, não é leviana. Tudo isso está muito presente em seu texto e é uma das razões porque ele soa tão verdadeiro. É o tipo de qualidade que busco em minhas leituras: A entrega da escritora ou do escritor, sua coragem em se expor, a solidez do que está dizendo e o talento para construir o texto, escolhendo cuidadosamente cada palavra. É o que separa os adultos (escritores verdadeiros, que sabem o quanto essa arte é difícil e exigente) das crianças (a garotada que acha que ter uma boa ideia e sair escrevendo e publicando vai abrir caminho para se tornar a próxima J. K. Rowling). Camila Fernandes demonstra, já em seu livro de estreia, que é uma escritora verdadeira.
Sobre a obra:
Comecemos pelo trabalho gráfico. Cada conto é apresentado com uma ilustração da autora. Seu traço é elegante e dinâmico. Não se entrega à convencionalidade acadêmica, nem ao frenesi de enquadramentos inesperados. As cenas são suaves e ela abusa de curvas para dar um toque onírico. Já comentei no facebook e volto a repetir: adoraria ver uma HQ desenhada por Camila. A ilustração da capa também é dela e, embora esteja recebendo muitos elogios, minha opinião é que a artificialidade do acabamento digital não harmonizou com a linguagem interna. Mas isso é uma opinião pessoal sobre um detalhe pequeno. Se você quiser uma opinião mais detalhada sobre a capa, recomendo este post, escrito por Alliah. O que realmente me incomodou no livro foi a gramatura do papel (explicando para leigos, é como chamamos a “grossura” do papel). Imprimiram com uma gramatura alta (explicando, mais uma vez, quero dizer que o papel está grosso) para disfarçar o fato de que o livro é curto. Coisas do mercado. Ultimamente os leitores não se empolgam quando o livro é curto. Acostumaram-se com os tijolos, a maioria, sinto dizer, recheados com irrelevâncias. Portanto, abro espaço para fazer um apelo à galera: vamos começar a repensar esses conceitos, ok? Não fiquem nessa neura de só dar uma chance a livros com mais de 400 páginas. Vocês podem estar perdendo preciosidades. Tamanho não é documento!
Lembra-se daqueles contos de fadas para crianças, onde tudo vai bem e todos vivem felizes para sempre no final? Esqueça tudo isso.
“Reino das Névoas” não é uma simples tentativa de dar tons sombrios às histórias originais ou embalar histórias infantis numa linguagem épica no melhor estilo pirotécnico de “O Senhor dos Anéis” (não confundam o que estou dizendo, pois sou fã dos filmes inspirados na obra de Tolkien). A proposta da autora foi resgatar o tom sombrio e adulto da arte de criar contos fantasiosos. Apesar do subtítulo, não há nenhuma fada por aqui. Os conflitos são tão mesquinhos quanto deveriam e tão violentos quanto manda a lógica. Esqueça a princesa em apuros, quase desmaiando enquanto aguarda um beijo do heróico príncipe encantado. Esqueça os anões filantrópicos. Esqueça os heróis confiantes e infalíveis. Nada disso cabe no “Reino das Névoas”. Aqui, as princesas sabem o que querem e se viram. Aos príncipes falta sutileza e, não raro, inteligência. É inegável o tom feminista da maioria das histórias, sem demagogia ou didatismo, e vejo isso como uma qualidade que se soma a tantas outras que fazem de “Reino das Névoas” uma leitura quase obrigatória para quem quer testemunhar essa gênese dos verdadeiros talentos na nova literatura brasileira.
Como disse anteriormente, Camila é uma escritora verdadeira. Seu texto é preciso, enxuto, sem desperdício de palavras e todas elas são bem escolhidas. Eu notei bastante influência do estilo de Neil Gaiman nas descrições de personagens e lugares e uma boa pitada de Bernard Cornwell na crueza de algumas histórias. É interessante a dedicatória que ela escreveu quando assinou meu exemplar: “Caro Walter, espero que curta esta jornada entre sonhos e pesadelos”, pois esta é a proposta do livro. Os personagens dos contos caminham entre a esperança, o horror e a redenção.
Nada havia de incomum em uma mulher bela e rica que amasse os jovens e fosse amada por eles. Mas essa era uma das histórias de que todos sabiam e fingiam não saber. Para todo ouvido, a rainha era uma sóbria viúva vestida de negro. Ainda que em festins secretos ela se mantivesse de todas as maneiras, menos sóbria. Ou vestida.
Página 102

















Oi, Walter! Adorei a sua resenha! Muitíssimo bem escrita!
Acho que já tinha visto o livro nas livrarias, mas não me despertou muito interesse. Realmente, como você disse, tamanho não é documento, me surpreendi muito com vários livros, muitos deles com menos de 300 páginas!
Vou procurar depois.
Beijos.
Mariana Sampaio
Blog Tijolinhos de Papel
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Walter Tierno disse:
Oi, Mariana.
Pode conferir este livro sem medo. Dos nacionais lançados este ano, este aqui é dos mais caprichados e bem escritos. Vale a pena.
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Parece ser um livro bem interessante, em que a autora não se deixa levar por modismo. É bom ver um título de fantasia em que o escritor se preocupa com a estrutura do livro, escolha das melhores palavras, e não somemente com a trama, que muitas vezes é um genérico de grandes sucessos do gênero.
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Walter Tierno disse:
Saudações Ulysses.
Tocou no ponto. Como eu disse, a dedicação e o cuidado na estética do texto estão um pouco em falta na nova onda de escritores nacionais. É necessário apostar não apenas em boas tramas, mas em como elas são apresentadas. Uma boa história se sustenta sem um bom contador de histórias? Talvez as excepcionais… mas quantas dessas existem por aí?
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