PsychoComics – Lobo Solitário

Saudações, galera.

Mais uma vez, vou apresentar um PsychoComics sem vídeo. Mas não se preocupem (ou preocupem-se, sei lá). Em breve, volto aos vídeos com algumas novidades muito legais.

Para compensar, resolvi apresentar aqui uma obra que admiro muito. O mangá (para quem ainda não sabe, é assim que os japoneses chamam as HQs) Lobo Solitário.

*O texto a seguir é uma reedição de um post que publiquei em novembro de 2007 no meu blog pessoal:

Japão, período Tokugawa. Itto Ogami, exímio espadachim e estrategista e uma das peças mais importantes da tríade criada pelo xogunato para impor sua autoridade: o executor. As outras duas eram os espiões e os assassinos, os últimos chefiados por Retsudo Yagyu.

Vítima de uma conspiração dos Yagyu, Ogami torna-se um ronin – um samurai sem mestre – e parte com seu filho recém-nascido, Daigoro, para uma saga de vingança. Para acumular recursos e afiar seu espírito, torna-se um assassino de aluguel e caminha pelo país, empurrando o carrinho de onde o filho testemunha as cenas de carnificina que ele promove.

Lobo Solitário é simplesmente fantástico!

Nenhum diálogo escrito por Kazuo Koike é apressado, nenhuma ação corre mais rápido do que o necessário. Existem inúmeros quadros cuja única função é apresentar cenários e essa apresentação pode se estender por várias páginas. Tudo é feito para que o leitor possa apreciar a série em todos os seus momentos, sejam os mais poéticos, sejam os mais vibrantes, como nas cenas de batalha. E que cenas… Os traços de Goseki Kojima são precisos e vigorosos, parecem querer sair do papel junto com o sangue negro e as lâminas afiadas que representa em poucas e certeiras pinceladas e leva os olhos do leitor de um quadro a outro, ora sem descanso, ora suavemente, ao sabor de um vento frio e trágico.

O retrato histórico é rico em detalhes e todos os personagens que, de alguma forma, atravessam o caminho do Lobo, são complexos e carismáticos. A tragédia das tramas é inevitável e as motivações e deveres a que todos estão atrelados são de um lirismo brutal. Ogami tem um objetivo simples e claro e trilha um caminho regado a sangue.

Não por acaso, Lobo Solitário influenciou gerações de artistas, dentro e fora dos quadrinhos. Ganhou adaptações para TV, cinema e teatro.

A publicação em terras ocidentais:

Segunda metade da década de 80. Ao reconhecer a inestimável influência que teria sofrido da obra de Koike e Kojima, Frank Miller convenceu a First Comics a trazê-la para o ocidente e batizá-la como “Lone Wolf and Cub”.
A First ainda engatinhava neste mercado e, como tantas outras editoras americanas fizeram nos anos seguintes, deu início a uma desastrada tentativa de adaptar os mangás ao padrão norte-americano, ou seja, revistas mensais, com vinte e poucas páginas, no formato 17 x 26 cm. Assim, “Kozure Okami” foi retalhada em 45 volumes que não chegaram nem perto do final da história.

Originalmente, a obra tem cerca de 8500 páginas. Veja, portanto, o absurdo da proposta. O mesmo aconteceu com outros trabalhos japoneses, como o ótimo “Akira”, que recebeu colorização digital. No Brasil, a Cedibra foi a primeira editora a publicar Lobo Solitário. Seguiu o padrão norte-americano, incluindo as capas ilustradas por Frank Miller e outros artistas americanos. Não passou da nona edição. Não pela obra. A editora é que foi à falência. Lá nos EUA, o mesmo aconteceu com a First Comics. Ela tinha conseguido a façanha de se tornar a terceira maior editora de quadrinhos norte-americana, logo atrás de Marvel e DC. Eles tinham alguns títulos interessantes em seu catálogo, como “Badger”, “Jon Sable Freelance” e “American Flagg!”. Esses três chegaram a ser publicados no Brasil.

“Lone Wolf and Cub” ficou perdido por lá. Por aqui, a (hoje, extinta) Sampa Editorial chegou a assumir a publicação, imprimindo as revistas num formato mais próximo ao do original, e foi a que chegou mais longe com a série. Mesmo assim, ainda ficou distante da conclusão.

No final da década de 90, a Dark Horse voltou a publicar “Lone Wolf and Cub”. Dessa vez, no formato originalmente publicado no Japão (segundo eles disseram; eu mesmo nunca vi os volumes japoneses), os 28 livros, foram enfim publicados. Finalmente, a obra completa em algum país ocidental! Pena que insistiram em inverter os quadros, para adaptá-los à leitura ocidental.

No Brasil, no entanto…

Os primeiros números podiam ser importados pela Devir, mas uma cláusula no contrato entre a Dark Horse e a licenciadora japonesa impedia a editora americana de comercializar os livros fora dos EUA. Mesmo assim, quem quisesse e estivesse disposto a gastar, conseguia com alguns importadores ou até mesmo com amigos que estivessem de passagem pela terra do Tio Sam.

Em 2004-2006, a Panini finalmente publicou a saga completa de Itto Ogami e Daigoro. Quase 30 anos depois de ter sido publicada em seu país de origem, “Kozure Okami” pode ser apreciada pelo público brasileiro e em português. A edição brasileira tem um formato um pouco maior, respeita a leitura oriental (direita para a esquerda) e traz bastante material complementar. Mesmo em um papel inferior, a edição da Panini é bem melhor do que a da Dark Horse.

Infelizmente, está difícil encontrar essa edição ou mesmo a da Dark Horse para comprar. A Panini chegou a colocar uma pesquisa no site da editora para que o público escolhesse qual série gostaria de ver publicada em edição especial. Infelizmente, Lobo Solitário não estava na frente…


Outras:Outra saga samurai criada pela mesma dupla responsável por “Lobo Solitário” é “Samurai Executor”. Felizmente, a Panini também a publicou e também tem qualidade editorial superior à edição norte-americana.Mais uma série dos dois é: “Path of the assassin”, sobre a juventude de Tokugawa Ieyasu, o samurai que unificou o Japão no início do século XVII, e seu protetor ninja, Hattori Hanzô.Do escritor Kazuo Koike, tivemos publicado em terras brasileiras mais duas séries interessantes: “Crying Freeman” (sobre um assassino japonês a serviço da máfia chinesa), também pela Panini e “Yuki – vingança na neve” (“Lady Snowblood”), pela Conrad. Nos EUA, todas foram publicadas pela Dark Horse.

 

Em tempo: Viram? Eu também curto mangás… aliás, a Panini prometeu relançar Dragon Ball. É um dos mangás mais engraçados que já li. Vale a pena conferir a primeira parte da saga. Depois, vem Dragon Ball Z, que não é tão divertido, mas essa é só minha opinião, ok?

Sobre o autor

Walter Tierno é ilustrador, escritor, blogueiro, pagador de mico, engolidor de sapo e um cara desagradável que responde sinceramente quando alguém pergunta sua opinião. Seu livro de estreia é Cira e o Velho, uma história de vingança que utiliza fatos e personagens históricos e mitologia brasileira.

6 comentários

  1. Déia disse:

    Caracas Walter, falta de informação é uma merda mesmo.

    Neste assunto, sou uma leiga total ou totalmente leiga… sei lá.

    Não tenho acesso á nada referente a HQs ou Mangás,na verdade, tudo o que eu sabia, era que tem um pessoal que se veste como os personagens de mangás, cosplayers (é assim que se escreve???), era uma “tapada” total, até conhecer seus posts aqui no psychobooks.

    Claro, continuo sendo uma ignorante no assunto, mas fico contente por estar tendo a oportunidade de acrescentar novas informações aos meus míseros conhecimentos.
    Como minhas experiências com mangás são quase nulas, eu nunca imaginei que esse tipo de publicação já existisse a tanto tempo. Para você ver meu nível de ignorância, pensei que tivesse surgido apenas neste século.

    Adorei o post!!!

    [Responder]

    walter tierno

    Oi, Déia.
    Lobo Solitário foi publicado originalmente, se não me falha a memória, em 1972. Mas provavelmente errei por uns dois ou três anos… Enfim, foi na década de 70. Mas os mangás são um pouco mais antigos do que isso. Não sou especialista, mas parece que começaram a ganhar força pós-segunda guerra.
    O mercado de quadrinhos no Japão é um verdadeiro fenômeno. Eles têm quadrinhos sobre tudo. Tudo mesmo! A produção de páginas de quadrinhos por lá é algo excepcional.
    Uma coluna especializada em que você pode conferir várias informações sobre os mangás é publicada às segundas na Revista Fantástica (www.revistafantastica.com.br), escrita pela Mariana Bassi e se chama Domínios de Benzaiten. Dê uma conferida.
    É uma pena que Lobo Solitário seja tão difícil de encontrar, hoje em dia. Mas, se quer uma dica, procure “Samurai Executor”. Esse é mais fácil de encontrar na Comix (www.comix.com.br) e na Rika (www.rika.com.br). Vai por mim… você não vai se arrepender.

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  2. Bruna Costenaro disse:

    Cheguei a ver esse mangá na banca, mas qd vi já estava bem longe…Vou ver se na Bienal consigo o volume um pra ver se curto ele…Não é bem o meu estilo, mas ultimamente estou disposta a novos horizontes de leitura =]

    Ótimo Post!

    Miquilissssss

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  3. Dani Uchima disse:

    Oi Walter, eu sou suspeita para falar pq sou viciada em mangás. Gosto de quase tudo… desde Sakura card captors até MPD psycho, passando por dragon ball e lobo solitário… Tbm concordo que Dragon ball é um dos mangás mais divertidos que já li! e que coisa não, escrito tantos anos atrás e continua vendendo… Tentei comprar nas bancas o volume 1 que saiu a pouco e cada q encontrei? vendeu tudo rapidinho… :-p

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  4. Clara Lopes disse:

    Não gosto muito de mangás mas eu li esse e lembro que gostei muito.

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  5. Jakson souza disse:

    Quando vai voltar com os videos, ja faz 1 mes do ultimo, na espera.

    [Responder]

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