PsychoNovel – Coração&Carne Cap FINAL

Era uma vez uma menina que queria ser, que invejava aqueles que já eram. Essa menina sofreu, odiou e transformou o seu desejo em amargura. Todo esse rancor a possuiu de uma forma tão profunda que lhe fez sentir no direito de fazer o mal como redenção a sua própria desgraça. Ela quis vingança e, como todos que carregam essa vontade, perdeu-se em um caminho sem voltas e as consequências não foram gratificantes. Elas nunca são.

Moly se perdeu em suas próprias frustações e a ela jamais conseguiu se recuperar da culpa pelo acidente com Felipe. Ela jamais considerou um instante sequer que seu plano perfeito pudesse sair da rota e ferir outras pessoas. Os cinco anos de coma de Felipe foi o seu martírio. Ela pouco saiu de casa, nem mesmo conseguiu ir para a escola mais. Ela apenas escreve suas memórias e frustações em seu blog na esperança de poder ajudar outros e ajudou.

Era uma vez uma menina que apenas vivia um dia após o outro sem pensei no amanhã. Somos sempre educados e pensar em um futuro, que nem sempre chega. Principalmente quando somos jovens esse futuro parece algo completamente desprendido do presente. É como se fosse uma realidade totalmente diferente da que estamos. Será que é mesmo assim? Será que devemos sim nos preocupar ou simplesmente viver?

Marina simplesmente viveu mesmo que de forma fria e até desumana muitas vezes. Ela optou por não pensar demais nesse tal futuro. Contudo, a despreocupação tem o seu preço. O acidente de Felipe mudou a sua vida também e lhe fez sentir uma responsabilidade que nunca teve. Cuidar de um bebê era algo que Marina jamais tinha imaginado, mesmo nos seus mais sombrios pesadelos. Contudo, ela sentiu como se aquilo fosse sua própria redenção pelos filhos que optara em não ter. Ela agora pensa no futuro.

Era uma vez uma menina que aceitou o mundo como era com todas as falhas e injustiças. Ela engoliu cada brutalidade que lhe foi mostrada para simplesmente conviver bem com ele. Ela simplesmente se deixou levar como tantas vezes fazemos. Inocentemente achamos que fazer nada é não agir, porém a vida é ardilosa.

Após o acidente de Felipe, Amanda decidiu ter o filho. Ela sentiu-se em obrigação com ele. Contudo, foi mais complicado do que ela pensou. Amanda teve muitos problemas na gravidez e recebeu apoio de talvez a mais improvável das pessoas: Marina. Com toda a incoerência e imprevisibilidade da vida, Marina faleceu logo após o nascimento da criança.

Aquela criança, um doce fruto do improvável, veio do encontro de duas pessoas que se uniam não pelo amor ou paixão, mas com seus próprios sofrimentos e frustações. No meio desse vale de incertezas, o nascimento mudou a vida de todos e acabou com qualquer dúvida ou conflito que assombrava aquelas pessoas. Nem sempre os caminhos e objetivos parecem óbvios ou justos. Eles simplesmente são.

Marina ganhou um objetivo, Molly perdeu o seu e Felipe tem uma nova chance. A vida é ardilosa, mas sempre encontra um caminho que nem sempre aceitamos ou compreendemos. Pois, afinal de conta, não passamos de simplesmente coração e carne.

FIM

Nota do Autor: Espero que tenham gostado dessa série que foi feita de uma forma diferente. A ideia principal dessa “novel” é brincar com a criatividade e o exercício da escrita. Eu fui criando, na maioria das vezes, pouco antes de publicar. Quis treinar e testar os limites da minha criatividade. Obrigado a todos que acompanharam e desculpe qualquer erro ou incoerência ao longo da história, mas o resultado final me agradou muito.

Opiniões são sempre bem vindas e outro PsychoNovel vem aí :)

Luiz Ehlers

Sobre o autor

PsychoNovel – Coração&Carne Cap #11

Felipe sentiu o abraço apertado e caloroso daquele menino. Não poderia ter recebido recepção melhor na sua volta ao mundo. Ele pode sentir sua própria essência no calor feliz daquela criança. Era uma sensação tão inusitada, que jamais pensou que seria capaz de experimentar. Tocou nos cabelos jovens e sedosos do menino como se tivesse retornando a sua própria infância. O menino era assustadoramente a sua imagem quando jovem, era um recomeço, era uma semente nova de si mesmo que tinha uma vida própria e independente da sua.

Felipe sentia-se fraco e velho diante daquele recomeço. Seu corpo que era tão grande e perfeito havia se reduzido a membros finos e uma pele alva. Ele sentia o rosto fino e os cabelos longos e revoltos. Na imagem que viu no espelho, ele não foi mais capaz de se reconhecer. Era como se a sua juventude tivesse esvaído por completo e tomado outra forma: daquela criança que exalava beleza e juventude em seus braços fracos e secos.

- Como é o seu nome? – perguntou Felipe ainda com o menino entre os braços. Sua voz saia cansada e seca.

- Felipe – respondeu o menino mantendo-se ainda em seus braços.
- Como o meu nome.
- Eu sei, foi minha mãe que escolheu em sua homenagem.
- Que bom que ela fez isso – sorriu Felipe tomado de uma emoção intoxicante.
- Por que ficou tanto tempo dormindo? – questionou o menino com a maior de todas as inocências.
- Eu não estava dormindo, Felipe. Apenas estava um pouco fora.
- Fora?
- Como se estivesse de férias.
- Por que estava de férias por tanto tempo? Cansou demais?
- Estava sim um pouco cansado.
- De que?
- De tudo. Eu precisava descansar.
- Fico feliz que tenha acordado, pai – Felipe não resistiu ao poder daquela palavra e chorou em uma mistura de emoção e carinho.
- Por que está chorando? Alguma coisa está doendo?
- Não é um choro ruim, é de felicidade.
- Eu também estou feliz que tenha acordado.
- Estou feliz também por te conhecer, meu filho.
- Parece que os sonhos dele tinham mesmo um significado – disse uma voz feminina sorrateira vinda da porta.
- Mãe, veja só o que aconteceu. Ele acordou – gritou o garoto.
- Eu estou vendo que sim, meu querido – disse ela entrando no quarto. Felipe ficou surpreso ao ver entrar em seu quarto uma mulher segura e cansada. Era Marina, que logo foi recepcionada com um abraço maternal de alegria do pequeno Felipe.

Onde estava Amanda? Essa foi a pergunta imediata que atravessou a mente ainda confusa de Felipe.

CONTINUA…08/11 15 HORAS

Sobre o autor

PsychoNovel – Coração&Carne Cap #10

O coma é algo praticamente mágico. É diferente do sono comum, é mais intenso, mas ao mesmo tempo tão leve. Não é como os sonhos, embora seja confuso algumas vezes também. É como se você mergulhasse em um vale relaxante de imagens e sensações e o mais importante: elas nunca são ruins. Você sente cada célula, cada átomo do seu corpo tomado pela mais pura e profunda sensação de relaxamento. Essa sensação é tão plena que nos dá a impressão de que nunca soubemos como é realmente senti-la.

Eu percebia o meu coração desacelerar e até o seu pulsar repetitivo se tornava uma canção doce e acolhedora como poucas vezes escutei. Em todas essas imagens eu raramente via pessoas de minha família e mesmo assim não me sentia só. Mesmo quando minha mente mergulhava no mais profundo e complexo túnel eu me sentia valente, sentia-me completo e capaz de enfrentar qualquer desconhecido a minha frente.

Estar em coma é uma deliciosa mistura de sonho e realidade. Você tem sempre a certeza de que está no controle e pode despertar a qualquer momento, porém, como em uma manhã fria ou chuvosa você pede por mais quinze minutos. Possuído por essa sensação viciante de prazer e relaxamento você se entrega e o tempo passa, porém jamais lhe parece mais do que aqueles quinze minutinhos.

Havia uma imagem que constantemente se mostrava em meus devaneios: eu quando criança. Quase sempre essa figura observadora e preocupada aparecia em momentos inusitados. Eu não sabia ao certo o que minha mente estava querendo me dizer. Eu me via com cerca de cinco anos, não mais que isso. Não entendia o que havia de tão relevante naquela fase. Talvez fosse um recomeço ou um resgate a algo que ficou preso na infância. Eu não sabia exatamente o que.

Eu sabia que aquele transe não seria eterno, por mais intoxicante que fosse. O despertar finalmente aconteceu. Senti meu corpo dolorido e cansado. Senti cada pedaço do meu corpo despertar cuidadosamente. Meus olhos se abriram lentos incomodados pelo excesso de luz. Para a minha grande surpresa, a imagem que vi foi justamente a minha com cinco anos. Porém, ele não ficou parado dessa vez veio ao meu encontro e abraçou-me forte com uma alegria intensa. Eu toquei em seu corpo cuidadosamente, meus braços doíam. Ele era real, de carne e osso. O menino olhou fundo em meus olhos e com um sorriso me chamou de pai.

Eu estava certo, era sim um recomeço…

CONTINUA 01/11 15 HORAS

Sobre o autor

PsychoNovel – Coração&Carne Cap #09

- Como você está, Amanda? – Felipe chegou sorrateiro, surpreendendo-a em seus pensamentos as arquibancadas.

- Estou bem – respondeu ela tentando disfarçar o incômodo de sua presença e a surpresa.

- Você não me parece bem. Só a lhe vejo pensativa pelos cantos. Parece que está tentando evitar a tudo e a todos. Até a mim?

- Não posso negar, Felipe, que toda essa história mexeu comigo. Ainda está. Já conversei com você o que precisava, sei da sua opinião.

- Temos uma responsabilidade a cumprir, Amanda. Pensei que tinha sido claro quando falamos. Não estou lhe dando as costas para nada.

- Eu sei que não. Eu apenas quero ficar sozinha. Preciso pensar em tudo, analisar cada ponto.

- Eu vim aqui por uma razão. Eu escutei que você considera algumas possibilidades com relação a essa criança.

- Não devia ficar dando ouvidos para Marina. Tudo que ela quer é nos envenenar. Garanto que está com inveja.

- Não mude de assunto, Amanda. Você considerou ou não tirar essa criança – Felipe expeliu aquelas palavras com dor. Aquele ato lhe parecia tão abominável e sem razão que era complicado até mesmo falar sobre ele.

- Você não entenderia o que se passa comigo. Não sabe o que estou passando…

- Eu não posso acreditar que é verdade. Você está na dúvida porque pensa em tirar a criança! – disse ele com o peito estufado de raiva.

- É por esses tipos de julgamentos que preferi me isolar de todos, principalmente de você.

- Não tem esse direito, Amanda. Essa criança também é meu filho.

- Mas quem irá carregá-la por todo esse tempo? Quem irá ter que amamenta-la? O pior de tudo isso está comigo, Felipe. A vida que será estragada será a minha ou você acha que irá cancelar algum jogo para cuidar do bebê?

- Você não me conhece nem um pouco né?

- Você faz tudo isso parecer simples, mas não é. Nada do que eu estou passando é simples. Como faço para você entender isso?

- Eu não vou deixar você fazer isso jamais. É meu filho que está aí dentro.

- Não venha com seu controle para cima de mim. Você jamais deveria ter sabido dessa criança. Você não é o pai dela por acaso, foi um jogo, poderia ser de qualquer um deles.

- Por que fala assim?

- Porque é a verdade. Não entendo de onde veio esse cara pegajoso e chato. Não é assim que os outros são. Por que tem que ser tão chato e certinho? Foi um sexo irresponsável, um gozo mal sucedido. Pare de achar que somos uma família. Não somos e nunca seremos.

- Por que está fazendo isso?

- Vejo que escolhi mal. Jamais iria querer de marido alguém como você. Não quero ter ligação com você.

- Eu não vou permitir que faça nenhum mal a essa criança – disse Felipe imobilizando-a pelos ombros, aumentando mais ainda a ira de Amanda.

- Me solte. Já disse que você não tem o direito de nada – gritou Amanda enquanto se debatia sob os punhos fortes de Felipe. Com força, ela, então, se livrou dele acertando-lhe um tapa forte contra seu rosto triste.

- Me dê a criança quando nascer que eu a criarei sozinho.

- Saia daqui – gritou Amanda.

- Você está fora de si, Amanda. Precisa se acalmar!

- Pare com isso. Pare de tentar me controlar – continuou Amanda aos berros. Tomada por uma ira contra Felipe, que vinha de toda aquela situação, Amanda o empurrou com força. Felipe perdeu o equilíbrio e caiu através dos degraus da arquibancada. Amanda o observou espantada.

Felipe chegou ao chão desacordado e com resquícios de sangue. A Amanda restou o desespero.
CONTINUA 25/10 15 horas

Sobre o autor

PsychoNovel – Coração&Carne Cap #08

Talvez diante do mais otimista dos olhares, Moly era uma menina que tinha tudo. Era uma boa filha, tinha o orgulho dos pais, tirava boas notas, tinha plenas condições de ir para uma boa universidade. Porém, para uma jovem naquela idade, nada disso importava. Tudo que ela queria, era exatamente o que não tinha: a popularidade, a beleza daquelas que ela admirava.

Moly muitas vezes ardia em desejo, mas este ficava preso no mais profundo do seu ser. Ela jamais conseguia se enxergar capaz de ser digna daquelas sensações. Então, apenas as acumulava, deixando-as cozinhar em seu peito e transformar-se em uma avalanche de mágoas e frustações contra seu corpo e sua aparência.

Moly sempre sentiu desejo por todos aqueles meninos que para Amanda e Marina parecia tão simples. As duas tinham Iago, Duca e Felipe no momento que quisessem. Era impossível não invejar o que aquelas duas eram capazes de conseguir. Era uma vitória diferente das que Moly tinha nos resultados de provas ou no elogio da família ou dos professores. Essa conquista dependia de um fator que Moly considerava desleal: sua aparência. Mesmo se ela perdesse peso, jamais conseguiria se sentir tão bela e atraente quanto Amanda e Marina.

Contudo, toda aquela admiração obssessiva logo se envenenou de inveja e dessa nasceu dois sentimentos escuros: o amargor e a vingança. Em muito pouco tempos era tudo que passava na mente de Moly. Ela não poderia ser como elas jamais e tudo que poderia fazer então era destruí-las. Essa sensação corrosiva tomou conta de todo seu ser de uma forma tão profunda que todo o racional dela apenas focava nisso. Tudo que ela tinha aprendido nos estudos estava focado em uma coisa: fazer aquelas que tanto lhe machucaram pagar.

Não poderia haver oportunidade melhor do que a gravidez e a proximidade de Amanda. Ela percebeu que Amanda evitava Felipe e ele mantinha-se mais distante que o normal. Ela observou os treinos e ele estava sutilmente transtornado. Errava muito e até brigava sem razão aparente. Mesmo as brincadeiras de Iago e Duca pareciam irritá-lo mais facilmente. Como era o esperado, a situação de Amanda havia mexido com ele também. Surgia uma oportunidade para Moly e a vingança e o amargor falaram mais alto.

Como Felipe estava menos sociável que o normal, ele normalmente era o último a sair dos treinos. Moly aproveitou-se de sua solidão e sutilmente aproximou-se dele. Felipe reagiu com surpresa, mas maltratar não era de seu feitio, ainda mais longe dos outros.

- Eu preciso falar com você – disse Moly reprimida e encolhida em si mesma.
- O que é? – disse ele mostrando-se surpreso e interessado.
- Eu não sei se deveria. Perdoe por me meter, mas creio que você tem o direito de saber algumas coisas que estão acontecendo com Amanda. Afinal é seu filho também.
- Aconteceu algo?
- Ainda não, mas pode acontecer. Amanda está considerando a possibilidade de tirar essa criança.
CONTINUA 18/10 15 HORAS

Sobre o autor

PsychoNovel – Coração&Carne Cap #07

AMANDA
É engraçado como o jogo pode virar tão rápido e tão intenso. Nunca pensei que em Moly poderia encontrar uma amiga. Ela foi tudo o que eu esperava de Marina, que pouco pareceu se importar com a minha situação. Pelo contrário, ela me tratava da mesma forma de sempre, irritando-se com meus cancelamentos aos seus compromissos carnais de sempre. Marina nem mesmo tocava no assunto de gravidez. Imagino que para ela o aborto era algo tão certo que já nem considerava naquela situação mais.

Aquelas atitudes de Marina causaram em mim uma aversão fora do comum com sua presença. Estar com ela parecia um peso, o que era tão estranho, pois ela sempre me pareceu uma pessoa legal. Eu sempre soube que era pedaço de carne importante para Marina, um brinquedo que ela mandava e usava em troca de proteção e popularidade. Porém, a diferença era que agora doía.

Moly, por outro lado, mostrava-se carinha e interessada nas sensações e mudanças que a gravidez provocava. Estar com Moly era como voltar para a infância, como uma brincadeira séria de casinha. Ela transformava aquela situação em algo simples e bonito. Ela conseguiu arrancar até mesmo risos meus, que pareciam tão raros. Foi muito importante tê-la ao meu lado. Foi, sem dúvida, a minha maior fonte de forças para enfentar tudo aquilo.

MARINA

Ela não era mais a mesma, Amanda tinha se transformado em outra pessoa. Não entendo como alguém como ela poderia ir adiante com isso. Aquela gravidez seria o seu fim, não apenas de sua vida social na escola, mas em qualquer lugar. Eu sei que não é simples, mas na idade que estamos, só temos uma alternativa. Algo assim pode acabar por completo com a vida que ainda nem temos formada.

Não importa o quanto eu tente manter as coisas como eram, ela insiste em fugir. Assuntos que antes eram banais agora parecem tabus. Cada comentário meu parece a coisa mais errada e depravada do mundo aos olhos dela. Não sei para aonde foi aquela Amanda que eu conhecia e era minha amiga. A menina que engravidou de Felipe não era mais ela.

Ela agora passa mais tempo com aquela menina Moly. As duas conversam como amigas de infância e parecem ter muito em comum. Talvez eu estivesse errada com relação a Amanda e com Moly seja o melhor lugar para ela. Se é assim que ela quer, assim será, mas espero que ela saiba muito bem que este caminho não tem volta.

MOLY
Tanto Amanda quanto Marina não poderiam ser descritas como nada além de lindas. As duas são as mulheres que eu sempre sonhei em ser. Seus gestos, seus cabelos, seus corpos eram tudo que eu queria nessa vida.

Porém, as duas me fizeram tanto mal, elas me machucaram tão profundamente que acho que jamais poderei esquecer e muito menos perdoar. Elas têm tudo nessa vida, beleza, prestígio e popularidade, mas lhes falta a esperteza.

Lançar uma contra a outra é tão simples. Quando se é alguém como elas tudo que não envolve os seus problemas parece pequeno e irrelevante, mas é aí que eu entro. É justamente nisso que está o meu diferencial com relação a elas.

Talvez eu jamais serei como elas, mas elas irão pagar por cada insulto, por cada machucado, por cada lágrima minha. Este é o meu momento e não vou desperdiçar. Quando ela se derem conta suas vidas estarão destruídas e o choro irá mudar de lado, o jogo irá virar…

CONTINUA DIA 11/10 15 HORAS

Sobre o autor

PsychoNovel – Coração&Carne Cap #06

Para Amanda, nada mais parecia normal. Embora toda a sua rotina tenha se mantido exatamente a mesma, tudo a sua volta estava diferente. A preocupação com o filho a consumiu por inteira, ela não conseguia sequer prestar atenção nas aulas, mesmo que tenha feito força para isso. Aqueles pensamentos a acompanhavam o tempo todo como uma dor constante.

Além de Felipe, ela tinha contado sua situação para Marina, que foi precisa em sua opinião: o melhor era tirar a criança. Amanda descobriu que inclusive ela já tinha feito isso e suas palavras revelavam uma assustadora simplicidade. Amanda sentiu naquela naturalidade de Marina um grande desconforto. Era como se algo nela pedia socorro, havia algo diferente: um elo mais forte do que ela podia imaginar.

Amanda procurou evitar tanto a presença de Felipe quanto de Marina. Ela já conhecia a opinião dos dois e estar perto deles era como dar alimento a suas dúvidas. Ela, então, procurava passar a maior parte do tempo sozinho e introspectiva.

O local mais reservado que pode encontrar foi a arquibancada do estádio, que normalmente ficava vazia quando não havia jogos. Tomada pelos seus dilemas, Marina recebeu uma visita inusitada, que apareceu de forma sorrateira e sentou ao seu lado. Era Moly, a menina que havia sido agredida por Marina na noite após o jogo. Sem dizer nenhuma palavra, a menina gordinha apenas gentilmente ofereceu um abraço, algo que Marina não estava em condições de recusar. Ela aceitou e permaneceu por algum tempo acolhida pela antiga inimiga.

- Precisa conversar? – perguntou Moly ainda durante o abraço – Sei que pode soar estranho, mas tenho observado você triste pelos cantos e pensei que precisaria de ajuda. Estou certa? – perguntou a menina olhando profundamente aos olhos úmidos de Amanda.

- Algo aconteceu – Amanda não teve travas, estava angustiada demais para ter cautela e aceitou o inusitado oferecimento da menina – Eu não sei como lidar com isso sozinha.

- Você sempre me pareceu tão segura das suas decisões.

- Talvez eu seja uma boa atriz – um sorriso discreto saiu do rosto ainda úmido de Amanda.

- Beleza para isso você tem.

- Você nos admira tanto assim, Moly?

- Não sabe como é ser alguém como eu. Gostar das pessoas e não poder estar perto por ser…

- Não deveria ser tão crítica com você. A minha vida ou de Marina não tem nada de glamour, pelo contrário, tudo é tão frio, somos como carne. Nada mais do que isso.

- O desejo e a carne são parte de nós. Alguns conseguem aproveitar e outros não. Talvez seja você que não consegue enxergar o quanto preciosa é a sua situação.

- Eu estou grávida, Moly. Esses jogos de carne e desejo me levaram a isso. Não importa a decisão que eu tome, minha vida nunca mais será a mesma. Entende a gravidade disso?

- Você pensa em não ter essa criança? – perguntou Moly sem mostrar muita surpresa com a revelação. Ela possivelmente já tinha matado a charada.

- Essa parece a decisão mais sensata. Eu não tenho condições, não posso dar o que essa criança precisa.

- A natureza sempre sabe o que faz, Amanda. Mesmo a mais despreparada mulher quando se depara com algo assim se torna uma grande mãe. Existe um elo tão forte que não há força terrena que possa destruir. Você pode pensar que não está pronta, mas seu coração e mente sempre estão. Posso sentir isso em você. Se fosse capaz de cortar esse elo, não estaria na dúvida.

Amanda se perguntou como aquela menina poderia saber tanto sobre isso? Será que Moly tinha uma história parecia? Ela preferiu não questionar nada naquele momento e apenas receber o conselho a amizade daquela menina.

Moly sabia que Amanda precisava refletir e a deixou só com seus pensamentos. Amanda se sentiu menos pesada e, ao que tudo indicava, ela estava próxima de uma decisão. Logo que saiu dali, Moly foi direto a uma sala. Nela estavam Duca, Iago e Marina, que a esperava impaciente.

- E então? – perguntou Marina ríspida.

- Tenho quase certeza de que ela não vai tirar a criança.

CONTINUA 04/10 15 horas

Sobre o autor

PsychoNovel – Coração&Carne Cap #05

Essa série é destinada ao público ADULTO!
- Fiquei com muita dúvida se você deveria saber ou não, mas acho que é seu direito.
- Isso é algo muito sério, Amanda. É claro que você deveria ter me contado.
- Eu sei que é, mas eu não vim com intenção de te pedir nada.
- Estamos juntos nisso e precisamos enfrentar juntos.
- Eu não sei o que é o melhor.
- Você está considerando a possibilidade de não ter essa criança?
- Estou. Não me sinto pronta para assumir algo assim.
- E você acha que existe um momento certo para se estar pronto?
- Claro que sim, Felipe, não temos renda, casa ou qualquer condição para criar uma criança. Como podemos considerar isso?
- Somos jovens sim, mas não incapazes. Não acho que seja fácil, mas acho que podemos sim enfrentar isso. Foi um ato inconsequente nosso e precisamos enfrentar como adultos.
- Está dizendo que?
- Eu não vou te deixar sozinha nisso, Amanda. Eu admito que essa notícia também me deixou feliz. Por motivos que talvez você não compreenda, nunca pensei que pudesse ser pai.
- Foi um acidente. Fomos inconsequentes, Felipe. Não estamos nem ao menos juntos.
- Você não entende, Amanda. Eu estou feliz em ter um filho com uma pessoa como você e tenho certeza que será uma boa mãe.
- Não era o tipo de reação que esperava de você.
- E o que esperava? Desprezo, repreensão?
- Não sei, pelo que eu vejo dos seus amigos acho que é isso mesmo. Esperava irritação, sei lá…
- Se fosse julgar você pelas suas amigas, talvez desprezo seria a melhor reação mesmo, mas eu não acho que você é igual a elas. Existe algo em você diferente, algo que senti naquela noite. Não é amor, sinto como se fosse algo maior que isso.
- Eu também senti algo diferente com você. Há algo nas suas atitudes que não parece com outros. Aquela noite foi mais especial do que eu pensei que poderia ser.
- Estou feliz em compartilhar isso com alguém como você. Não posso prometer muito, mas farei de tudo para que você e essa criança recebam o que precisem.
- Obrigado, Felipe.
A reação de Felipe me deixou completamente desconcertada. Se tivesse sido desprezo, eu acho que lidaria tão bem, mas como agir diante do apoio? Quem poderia pensar que por trás de todos aqueles músculos brutos, existia um ser humano caloroso e bom. As palavras de Felipe foram como flechas cortantes ao meu coração. Ele queria e apoiaria o nascimento dessa criança. A felicidade com a notícia que ele mencionou era visível nos seus olhos. Todas aquelas palavras deles me deram uma certeza que não tinha: ele seria sim um bom pai.
Eu lamento tanto que tudo tenha que ser diferente, que não possa ser como Felipe quer. Marina estava certa, eu não deveria ter falado com ele. Se não tivesse minha decisão continuaria sem abalos, sem dúvidas ou arrependimentos. A conversa com ele apenas tornou o meu ato mais dolorido. Não havia outro jeito, eu precisava tirar essa criança.

CONTINUA… 27/09/2011 15 HORAS

Sobre o autor

PsychoNovel – Coração&Carne Cap #04

Essa série é destinada ao público ADULTO! 
Eu treino futebol com eles todos os dias. Não existe cansaço ou chateação, afinal homem não tem disso, né? Não tenho dúvidas do que sou ou mesmo do que gosto, apenas acho que não tenho forças ainda para enfrentar uma realidade aberta. Estar com Iago e Duca, jogando e bebendo não é ruim. Eles me tratam bem e os considero meus amigos, talvez os meus melhores.
Acho curioso que o lugar onde preciso estar para me esconder é justamente o que mais tenta meus desejos ocultos. Toda aquela atmosfera de jogo é sensual e intoxicante demais em alguns momentos, mas aprendi a me controlar. Não acho que nenhum deles estaria pronto para entender estes meus desejos, que nem eu mesmo consigo. Então, simplesmente sigo suas vontades e determinações, como se fosse um deles. Embora pareça limitado algumas vezes, estar naquele grupo me faz sentir aceito, sinto-me o mais normal dos garotos, o que naquela etapa da minha vida, não há melhor sensação. Durante algum tempo, sempre me perguntava por que e até quando? Hoje não faço mais isso e mesmo sem essas respostas simplesmente vivo, sem questionamentos alguns.
Não foi algo simples, mas ganhamos o último jogo. Eu e todos os meninos merecemos cada grito de histeria que saiu da plateia. Eu, Duca e Iago bebemos muito, mais até do que poderíamos ou mesmo deveríamos.

Depois de toda aquela bebida, eu sabia o que sempre nos esperava. Marina iria estar nos oferecendo um prêmio à nossa vitória ou mesmo consolo a uma possível derrota. Não importava a ocasião, ela estaria lá. Duca e Iago aguardavam ansiosos pelo momento de receberem aqueles cuidadosos serviços. Tinha vezes onde eu achava que isso era o grande motivador para eles jogarem melhor. Não os culpo por isso, na idade que em que estamos parece que só uma coisa importa: o sexo. Ele move todos os nossos atos.

Não sei exatamente porque, mas Marina não veio a mim. Eu escolhi então sua amiga, que eu nem mesmo sabia o nome. Foi uma experiência boa, não posso reclamar, levando em conta que era com uma mulher. A amiga de Marina era diferente dela, tinha uma doçura e ternura que me agradava mais. Passamos a noite juntos, mesmo depois do sexo. Ela era uma boa companhia e senti uma grande entrega da sua parte, bem maior do que uma situação como aquela poderia requerer.

A noite foi boa, mas aquela vida com Iago e Duca era dinâmica demais. Enquanto eu tinha ficado de alguma forma tocado com a amiga de Marina, eles possivelmente nem lembravam o que tinha acontecido. Porém, sempre mantinham cumprimentos maliciosos quando se encontravam com Marina pelos corredores. Enquanto os três permaneciam com insinuações e toques exagerados, eu e a amiga dela apenas trocávamos olhares de surpresa e algumas vezes graça para os diálogos maliciosos e sem fundamento dos outros. Não entendia porque não nos falávamos, já que a vontade parecia estar em ambos. Creio que a relação dela com Marina era a mesma que a minha com eles. Éramos apenas seguidores da vontade de outros e nosso interesse existia, mas nenhum de nós tinha coragem ou interesse de mudar aquela realidade. Eu não sabia exatamente o porquê e imaginava que ela também não.

Algumas semanas se passaram e um dia recebi um recado dela solicitando um encontro. Era uma mensagem direta, mas tinha um detalhe muito especial: sua assinatura. Ali descobri o seu nome: Amanda. Eu fui ao encontro curioso e de certa forma feliz, a revelação de seu nome pareceu dar uma nova forma à nossa estranha relação.

Assim que cheguei ao lugar marcado, ela me recepcionou com um abraço demorado. Algo não estava bem, logo veio um choro inesperado e a notícia: Amanda estava grávida!

CONTINUA… 20/09/2011 15 HORAS

Sobre o autor

PsychoNovel – Coração&Carne Cap #03

Essa série é destinada ao público ADULTO!

Eu fiquei lá e nada fiz. Presencie toda a violência e maldade que Marina era capaz e não movi um músculo sequer para ajudar Moly. Ela era uma menina simpática, gordinha e, claro, excluída por toda a tropa de meninas legais, que me incluía.

Todo o grupo de Moly era composto por meninas desesperadas pela tão querida fama e popularidade. Elas ficavam sem ar quando passávamos pelos corredores em nossas roupas justas e sempre provocantes. Tenho absoluta certeza que elas dariam de tudo para ser uma “carne” como éramos. É engraçado que pessoas como nós possam ser um exemplo a alguém. Eu não me sentia um.

Marina lançou todas as palavras e ofensas que pôde contra Moly. Ela, sem muita defesa ou apoio, apenas escutava as agressões tomada por um choro desesperado que misturava medo e vergonha. Os meninos, que mal se recuperaram da cerveja, apenas riam e achavam graça como se fossem uma plateia sádica ao discurso cruel de Marina.

Eu não tive escolha, o caminho que havia escolhido não poderia ser mudado. Eu ri também, fui capaz de dar gargalhadas diante de uma menina que era espancada por algo pior do que punhos: as palavras. Marina gritava tão alto que qualquer um que passasse ali escutaria, era como se ela tivesse sido tomada por um ódio brutal que eu não sabia de onde vinha. Era simplesmente assustador e todo aquele medo apenas me mantinha no caminho que estava. Como se não bastante, para encerrar o espancamento moral contra Moly, ela a ofereceu aos meninos, como um pedaço de carne. Porém, todos eles estavam exaustos e zonzos com os efeitos retardados da bebida e recusaram sequer chegar perto da menina. Felipe estranhamente não se manifestou.

Com gargalhadas altas saímos dali, deixando a pobre menina ferida ao frio. Eu não olhei para trás, não tinha porque, afinal de contas eu era da tropa das meninas legais, então, deveria ser fútil. Marina saiu abraçada em Iago e Duca como se toda aquela brutalidade fosse a coisa mais normal desse mundo. Os dois, como massas de músculo e desejo que eram, nem mesmo se importavam com o que presenciaram. Possivelmente nem lembrariam, eles apenas queriam mais carícias e estímulos em seus corpos que recuperavam o vigor e o tesão. Tinha certeza de que uma segunda rodada de sexo estava por vir.

Ao meu lado, com sua mão gentilmente posta em mim estava Felipe. Ele, no entanto, não agia como os demais, nem mesmo ria. Estranhamente o toque não parecia sedento, mas acolhedor. Estava frio e aceitei o seu gesto inusitado e o abracei sugando o seu calor que continuava intenso. Ele me olhou e apenas sorriu de uma forma doce, que eu jamais pensei que pudesse sair de alguém como ele.

Marina e os demais foram para mais uma aventura sexual, Felipe levou-me até o seu quarto onde ofereceu o seu peito para eu dormir. Ele estava cansado e não queria sexo, podia sentir pela forma gentil que ele me tratou. Foi uma boa oferta e era o que eu precisava para esquecer o que houve com Moly. As palavras e a ira de Marina ainda ecoavam na minha cabeça, mas o calor radiante do peito de Felipe pareciam me ajudar a esquecer. Porque será que estar com ele parecia bom? Eu não poderia estar sentindo aquilo. Será?

CONTINUA…13/09/2011 15 horas

Sobre o autor