Boa noite, gentes!
Enquanto estou lá, na Bienal do livro de SP (sim, sou praticamente onipresente =D), vou indicar pra vocês um livro delicioso, com a temática apocalíptica e muito, muito cativante! Bora lá?

A idade dos Milagres
Karen Thompson Walker
Tradutor: Christian Schwartz
Editora: Paralela
Páginas: 216
ISBN: 9788565530088
Publicação: 10 de agosto de 2012
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[Leia um trecho]
Sinopse:
Em um sábado aparentemente comum, na Califórnia, Júlia e sua família acordam e descobrem, com o resto do mundo, que a velocidade de rotação da Terra está diminuindo. Os dias e as noites vão ficando mais longos, fazendo com que a gravidade seja afetada e o meio ambiente entre em colapso. Pássaros desorientados caem mortos do céu, centenas de baleias encalham na praia, as marés saem de controle. Enquanto alguns entram em pânico, outros procuram viver como se nada estivesse acontecendo, agarrando-se a qualquer custo à sua rotina e ignorando a evidência de que o fim do mundo se aproxima. Ao mesmo tempo que luta para sobreviver às mudanças e se adaptar à nova “normalidade”, Júlia tem que lidar com os problemas típicos da adolescência e os desastres do cotidiano: a crise no casamento de seus pais, a perda de antigos amigos, as amarguras do primeiro amor e o estranho comportamento de seu avô, que acredita que tudo se trata de uma conspiração do governo e passa os dias catalogando suas posses obsessivamente.
Comentários
Dois marcos na vida de uma única pré-adolescente: o primeiro é comum, a difícil passagem da infância para a adolescência e toda a dificuldade em se tornar uma nova pessoa, de acordo com os novos desafios propostos; a segunda é inusitada: A Terra está com a rotação em progressa desaceleração. O mundo continuará o mesmo? Como isso começou? Quais os efeitos dessa nova realidade?
Júlia tem uma melhor amiga, Hanna, e está com ela em sua casa, pronta para ir ao treino de futebol, quando a notícia da desaceleração da Terra, cai sobre sua família. A princípio o desespero toma conta de todos, a família de Hanna, por ser religiosa, resolve se afastar para um retiro. A família de Júlia segue sua vida, controlando o fato, mas convivendo com ele; cada membro encarando a tragédia do seu próprio jeito.
O núcleo familiar de Júlia é composto por ela, sua Mãe e seu Pai. Sua mãe é uma ex-atriz, que agora leciona teatro, seu pai é obstetra, especializado em gravidez de alto-risco. Seus empregos denotam bem suas características: a Mãe de Júlia é dada ao drama, superexagerada em suas reações, está sempre levando tudo aos extremos; seu pai é um homem calado, acostumado a lidar com problemas e resolvê-los de forma serena. Júlia demonstra durante todo o enredo uma mistura das duas personalidades.
É um livro intimista, uma tragédia vista sob o ponto de vista de uma adolescente, que conta, a partir de um futuro em que vive e que nunca comenta, como tudo começou. São lembranças de um tempo passado, recheadas de saudosismo, com uma clareza de ideia características de uma pessoa adulta, incorporadas nos acontecimentos da vida de uma pré-adolescente.
A nova realidade vai se desnudando aos poucos durante a leitura. Os acontecimentos vão se desencadeando, o mundo vai se desintegrando, relações vão deixando de existir e novas se firmam.
A narrativa é em primeira pessoa, sob o ponto de vista da Júlia, então todas as informações que temos sobre os desastres e sobre os desdobramentos da desaceleração são as impressões dela e tudo o que ouviu falar. Algumas perguntas ficam propositalmente sem resposta, nós sabemos o que ela sabe. O que não atiça sua curiosidade, não nos é revelado.
Gostei bastante da crítica à sociedade embutida no livro. Durante a desaceleração, há duas linhas seguidas pelas pessoas: umas acompanham o novo tempo da terra, com dias e noites mais longos, e outra, a mais rígida, que continua seguindo o relógio de 24 horas, independentemente da posição do sol. Há um preconceito pelas chamados “Seguidores da hora real” que beira o fanatismo religioso. Considerados páreas, são excluídos e rechaçados de forma velada pelos “Seguidores do relógio”.
O paralelo feito entre crescimento pessoal em meio a uma catástrofe foi um toque de gênio. Por muitas vezes me senti mais enlevada pelo drama pessoal de Júlia do que pela desaceleração em si. A história de Júlia é simples, seus dramas são comuns, sua vida é comum, mas a escrita de Karen nos envolve completamente. A forma como Júlia (sob oo ponto de vista de protagonista que já viveu aquilo) às vezes nos avisa de algo que ainda está por vir é sútil, mas eloquente quanto ao dano – ou benefício – que aquilo levou.
Faço um aparte para falar do avô de Júlia. Já com 86 anos, ele rouba todas as cenas em que aparece. Seu desenvolvimento foi o mais curto e o mais emocionante.
Leiam!
Talvez tivesse começado antes da desaceleração, mas só depois fui me dar conta: minhas amizades estavam se desintegrando. Tudo estava desmoronando. Foi uma travessia difícil aquela, da infância para uma próxima vida. E, como qualquer outra dura jornada, nem tudo sobreviveu.
Página 74

Playlist
- R.E.M. – It’s The End Of The World

















